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autoapresentação Lajes do Pico 10 agosto 2011 museu dos baleeiros

Boa noite a todos e obrigado pela vossa presença

A ChrónicAçores retrata os meus amores ilhéus. Além da literatura dos Açores, viaja de Bragança à Austrália, e aos meus amores por São Miguel, Santa Maria, São Jorge, Faial e Pico.

Aliás a inquietude persegue-me desde que deixei a Europa em 1973 e me abri ao conhecimento universal e multicultural. Adquiri uma errância mais própria de nómadas ciganos do que das origens sedentárias de marrano galaico-português. Esta inconstância assola-me ainda mais desde que me arquipelizei nos Açores há mais de seis anos. Sou conhecido pela infidelidade no amor às ilhas que habito. De cada vez que saio da Ilha verde - e visito ou conheço nova ilha – enamoro-me loucamente como um jovem adolescente de sangue quente em busca de paixões avassaladoras como são os amores da juventude. Só posso viver numa mas em todas quero estar em simultâneo, pois nelas me sinto em casa.

Como pode uma pessoa vinda de outras culturas e continentes entender estas ilhas e suas idiossincrasias? Pois bem, eu não só acredito em multiculturalismo, como sou um exemplo vivo do mesmo. Nasci numa família mesclada de Alemão, Galego, Português e Brasileiro do lado paterno e do lado materno, Português e marrano, sangue de judeus conversos. Só tarde me apercebi desta herança judaica que foi tão importante no povoamento destas ilhas.

Aos 23 anos publiquei o meu primeiro livro de poesia “Crónicas do Quotidiano Inútil”. Depois por cortesia do exército colonial fui defender o agonizante Império Português em Timor (1973 1975) onde fui Editor-chefe do jornal A Voz de Timor em Díli, antes de ir à Austrália e decidir adotá-la como pátria futura.

Comecei a interessar-me pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialetos em Timor. Desde 1967 dediquei-me ao jornalismo (rádio, televisão e imprensa escrita) e durante 24 anos escrevi sobre o drama de Timor Leste enquanto o mundo se recusava a ver essa saga.

De 1976 a 1982 desempenhei funções executivas na administração da Companhia de Eletricidade de Macau. Ali também fui Redator, Apresentador e Produtor de Programas para a TDM, RTP Macau e TV de Hong Kong. Depois, radicar-me-ia em Sydney (e, mais tarde, em Melbourne) como cidadão australiano. Na Austrália estive sempre envolvido nas instâncias oficiais que definiram a política multicultural do país e ainda hoje me definem. Fui Jornalista no Ministério do Emprego, Educação e Formação Profissional e no Ministério da Saúde, Habitação e Serviços Comunitários além de ter sido Tradutor e Intérprete no Ministério da Imigração e no Ministério de Saúde de Nova Gales do Sul.

Divulguei a descoberta da Austrália e vestígios da chegada dos Portugueses (1521-1525, mais de 250 anos antes do capitão Cook). Igualmente difundi a existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (há quatro séculos). Como Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators & Interpreters), lecionei em Sidney na Universidade UTS, Linguística/Tradutologia e Estudos Multiculturais a candidatos a tradutores e intérpretes e por mais de vinte anos, fui responsável pelos exames dos Tradutores e Interpretes na Austrália (NAATI National Authority for the Accreditation of Translators & Interpreters).

Fui Assessor de Literatura Portuguesa do Australia Council, na UTS Universidade de Tecnologia de Sidney (1999-2005), publiquei trabalhos em jornais e revistas académicas/científicas, e apresentei temas de linguística/tradutologia e literatura na Austrália, Portugal, Espanha, Brasil, Canadá, China, etc.).

Em 1999, escrevi o ensaio político “Timor Leste: o dossiê secreto 1973-1975”, a que se seguiu em 2000 a monografia "Crónicas Austrais 1976-1996". Em 2005 compilei e publiquei o "Cancioneiro Transmontano 2005" e outro volume dos contributos para a história "Timor-Leste vol. 2: 1983-1992, Historiografia de um Repórter" (> 2600 pp., edição de autor CD).

Entre 2006 e 2010, traduzi, entre outras, obras de autores açorianos para Inglês, nomeadamente de Daniel de Sá[1], de Manuel Serpa[2], Victor Rui Dores"[3]. Em março 2009 publiquei o volume 1º da "CHRÓNICAÇORES: uma Circum-navegação, De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores, " cronicando as minhas viagens em volta do mundo.

Organizo desde 2001 os Colóquios Anuais da Lusofonia que ocorreram no Porto, Bragança. Ribeira Grande e Lagoa (São Miguel, Açores), Brasil e Macau e sou atualmente o Editor dos Cadernos (De Estudos) Açorianos, coordenados por Helena Chrystello e Rosário Girão e livremente acessíveis em linha.

Este segundo volume continua a minha circum-navegação. Na lenda havia um Rei Artur, Sir Galahad, os cavaleiros da Távola Redonda e a busca pelo Santo Graal. Aqui não há Dom Quixote, nem Sancho Pança nem moinhos de vento, contra os quais espadanar. Há apenas um poeta utópico, sequioso de aprender outras línguas, hábitos e culturas. Da infância em Trás-os-Montes, parti à conquista do “lulic” em Timor Português, dos hippies em Bali (Indonésia), sobrevivi ao “Anno Horribilis” no Verão Quente de 1975 Portugal, atravessei as Portas do Cerco na China de Macau, percorri a Austrália Ocidental, Vitória e Nova Gales do Sul, com passagem pelo Oriente do Meio e seus emirados, Europa, Ásia e Pacífico Sul, antes de redescobrir o Brasil e Portugal. Por fim, pairei nos ares como um milhafre sobre a ilha de S. Miguel donde voei em conquista de Santa Maria, Faial, Pico e S. Jorge. Se na Austrália encontrei uma tribo aborígene a falar crioulo português com mais de 450 anos, descobri na antiga Bragança a mátria e nos Açores descobri o que a maior parte do mundo desconhecia: uma pujante literatura.

Esta viagem leva-nos num périplo pelo mundo em que vou cronicando tal como Marco Polo, as terras, as gentes e os costumes e tradições. Da análise política, social e pessoal parto à descoberta de culturas antes de regressar ao seio duma Lusofonia sem raças, credos ou nacionalidades, até me radicar na “Atlântida” onde desvendo e divulgo a fértil literatura açoriana catapultadora de autonomias e independências por cumprir.

Falta aqui agradecer à minha mulher por ter casado comigo. Sem isso estaria na Austrália e nunca teria conhecido os Açores e a açorianidade de que falo neste livro. Acredito na multiculturalidade e dela absorvi e aprendi mais nesses países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos compreendi que é possível preservar a nossa língua e cultura mesmo sem ter uma escrita por mais de 50 mil anos, com os chineses descobri o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, com os timorenses, macaenses e tantos outros aprendi outras partilhas de saber que ainda hoje fazem parte do meu quotidiano.

Como se pode optar por ficar aqui nestas ilhas e descurar todos os mundos que existem para lá deste arquipélago? É simples, uma pessoa fica ilhanizada como Almeida Firmino em A Narcose, como se os outros mundos não tivessem importância a não ser para divulgar o segredo da existência de uma importante literatura de cariz açoriano. Foi preciso descer à Praia da Viola na Lomba da Maia onde vivo, subir ao Monte Escuro e aos sempiternos verdes montes, ver as vacas alpinistas e o mar que nos rodeia para entender a açorianidade que nos leva a escrever.

Depois, é preciso viajar entre estas nove filhas de Zeus e entender os maroiços do Pico ao sabor do seu Verdelho, calcorrear o Barreiro da Faneca, pisar as areias esbranquiçadas de Porto Pim e meditar em frente ao ilhéu do Topo. É essencial partir à descoberta de cada ilha, sonhando com Dias de Melo nas agruras e na fome dos baleeiros, reler o Mau Tempo no Canal, parar num qualquer aeroporto e entender o Passageiro em Trânsito do Cristóvão de Aguiar, ler em voz alta a poesia do Fogo Oculto de Vasco Pereira da Costa, Viajar com as Sombras ou com o Tango nos Pátios do Sul de Eduardo Bettencourt Pinto, depois de revisitar as pedras arruinadas do Pastor das Casas Mortas ou a Grande Ilha Fechada de Daniel de Sá. Escolhi estes que melhor conheço mas há muitos outros autores açorianos que não só merecem ser lidos, como deveriam constar obrigatoriamente de qualquer currículo de ensino.

Toda a minha vida foi uma circum-navegação. Se nos anos 70 designei para pátria a Austrália nunca deixei de conjugar a outra de Fernando Pessoa, a língua portuguesa. Hoje tenho como mátria Bragança mas aos açorianos o devo pois foram eles que me ensinaram o amor às raízes.  Ao vê-los tão amantes das suas terras tive de descobrir as minhas origens em Bragança onde vivi menos tempo do que em qualquer outro lugar. Sinto como todos transportam esse sentimento de pertença aqui e no estrangeiro.

Quando aqui cheguei desconhecia quase tudo sobre as ilhas, mas descobri no Dicionário do Morais os termos “chamados” açorianos. A língua recuada até às origens e adulterada pelo emigrês que trouxe corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Tratei de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à sua infância, sem perder de vista que as ilhas reais já não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Nesta geografia idílica não busquei a essência do ser açoriano. Existirá, decerto, em miríade de variações, cada uma vincadamente segregada da outra. Também não cuidei de saber se o homem se adaptou às ilhas ou se estas condicionam a presença humana, para assim evidenciar a sua açorianidade. Limitei-me a observar e a analisar o que me rodeia e depois passei ao papel essas crónicas do mundo que me envolve. Aliás, estou convencido de que uma das razões para haver aqui tantos escritores se deve exatamente ao facto de vivermos nestas ilhas. Cito do livro:

A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver dilatar nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu. Perdi sotaques mas não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo a reboque, colar multifacetado de vivências de mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, depois em um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente Austrália, e na ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar a esta Atlântida Açores.

Tudo começou quando traduzi autores açorianos como Daniel de Sá e Victor Rui Dores entre outros. Acabei cativo e apaixonado. Tive de escrever para me libertar da poção mágica do arquipélago e daí nasceu “ChrónicAçores: uma circum-navegação”. Por isso escrevi  

Que Dias de Melo era um operário, agricultor, pescador, escultor que trabalhava, ceifava, pescava e esculpia a palavra como um baleeiro, pescador, marinheiro, mestre de lancha da ilha do Pico. Escreveu como se da janela da sua “Cabana do Pai Tomás” no Alto da Rocha na Calheta de Nesquim, vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras

Que Cristóvão de Aguiar psicanalisou as gentes e a terra que o viram nascer mas adotou o Pico como nova ilha mátria em 1996. Para ele a escrita nunca será catarse, título do seu mais recente livro, pois é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha...Como diz (Relação de Bordo II pp. 199-200) Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado...trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos...

Que Vasco Pereira da Costa é um apaixonado que representa a universalidade da açorianidade nos seus contos e poemas, sem jamais descurar o telurismo na sua escrita, sendo sarcástico e crítico do falso cosmopolitismo insular quer na crítica à mentalidade medíocre quer no provincianismo balofo que critica na multiplicidade da sai obra que vai desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia

 

Num mundo marcadamente materialista como este, decidi que a minha herança para os filhos seria esta riqueza dos conhecimentos que colecionei ao longo da minha circum-navegação e que agora condensei em livro. Aprendi mais nos países onde vivi do que qualquer universidade me poderia ensinar. Com os aborígenes australianos entendi como é possível preservar a língua e cultura mesmo sem haver escrita há 60 mil anos. Com os chineses apreciei o valor do futuro com base nos ensinamentos do passado, e com os timorenses, macaenses e outros aprendi saberes que fazem parte do meu quotidiano. É disso que este livro fala. E continuo a citar alguns excertos:

Tivesse eu fôlego e iria ao mítico Pico da Atlântida submersa, cujo magnetismo me fascina ao ponto de desejar, vezes sem conta, mudar de armas e bagagens para este Triângulo Sagrado onde prometo fazer imolações e outros sacrifícios nas aras do destino. Não sendo das Bermudas este triângulo isósceles, que nunca escaleno obsceno, seria ótimo pousio final para as minhas cinzas quando chegar a estação de fazer como as cobras e trocar de pele. Despir a bela capa colorida terrena, de seis decénios, e vestir o cinzento das cinzas que seriam lançadas nesta lendária Atlântida de continentes submersos cujos picos vocês habitam.

Aqui, na Gruta das Torres senti-me um salteador da Arca perdida à sombra do Pico que, ora se esconde, ora se revela num jogo constante do gato e do rato, que entusiasma e arrebata. Sinto o sortilégio. O mágico cume tem um íman que atrai a visão e nos desconcentra, sempre insistindo para o contemplarmos nas suas mil e uma facetas alteradas a cada segundo.

Quero salientar que é uma honra estar aqui nesta vila que foi a primeira da ilha, feita de gente que ao longo dos séculos sempre soube arcar com todas as dificuldades e domar a lava com ferros e marrões até amontoarem a pedra em enormes maroiços”, autênticos monumentos num rendilhado de paredes, tarefa hercúlea como tantas outras que as gentes do Pico empreenderam ao longo de cinco séculos de colonização da agreste ilha, sem esquecer a luta titânica que nos seus pequenos botes travaram durante um século contra a baleia e ora descobrem novas formas de vida.

Da última vez que aqui estive, em pleno centro de São Miguel Arcanjo, ao andar rumo à casa do escritor Cristóvão de Aguiar deparei com uma camioneta de passageiros, estacionada, aguardando o início de nova semana de trabalho. Ali me ocorreu a ideia peregrina de como seria culturalmente interessante a aventura de “pedir emprestada” a carripana, começar a percorrer as aldeias (ditas freguesias nas ilhas) e gravar as histórias que os passageiros fossem contando. A viagem não teria destino. Duraria tanto quanto as histórias dos seus passageiros. Não se cobrariam bilhetes. Pararia em todos os locais, para que contassem histórias e lendas do local onde paravam. Que livro maravilhoso não daria esse compêndio de histórias apanhadas ao acaso daqueles que tomassem o autocarro dos sonhos. Assim me despedi da ilha prometendo voltar com mais tempo.

Termino dizendo que esta é a magia da vossa ilha que se insinua como uma amante insaciada, mulher fatal capaz de marcar os destinos de todos os homens que têm a sorte de a encontrar.

Bem hajam pela vossa paciência para me ouvirem pois vou terminar lendo o único texto em que uso termos típicos das nossas nove ilhas.

 

ver imagens images/stories/videos/chronicaçores pico 10ago20111.pdf  

[1] Santa Maria ilha-mãe, O Pastor das Casas Mortas, São Miguel: A Ilha esculpida e a Ilha Terceira Terra de Bravos

[2] As Vinhas do Pico

[3] Ilhas do Triângulo, coração dos Açores numa viagem com Jacques Brel

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