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apresentação da coletânea por lurdes alfinete

Exmas. Senhoras e Senhores

(…)

A apresentação de um livro carrega sempre uma forte carga emocional e é um momento de responsabilidade. Entrar no mundo de quem produz a obra e procurar entender os motivos que levaram à sua saída para o prelo não é tarefa fácil.

Assim, nada melhor do que começar esta apresentação com as palavras de quem, nesta matéria, estará muito mais à vontade:

«Vem esta Coletânea de Textos Dramáticos suprir uma lacuna que há muito se fazia sentir nos escaparates das livrarias, a saber, um florilégio de extratos tão-somente de peças de teatro assinadas por cinco escritores açorianos (…).» (Prefácio, p. 6)

É assim sabiamente resumido por Maria do Rosário Girão o conteúdo do livro que hoje é lançado, da autoria da Helena Chrystello e da Lucília Roxo.

Com o firme propósito de providenciar uma fonte primeira de material dramático a didatizar, esta Coletânea é, também, o reflexo de obras açorianas que há muito clamam e reclamam por reedições.

Olhemos, então, o principal objetivo que, no nosso entender, subjaz a esta obra: a possibilidade de constituir um recurso metaliterário, de suporte e de alargada significação para professores e alunos.

De facto, a escolha de excertos destes cinco vultos da literatura açoriana – Álamo de Oliveira, Daniel de Sá, José Martins Garcia, Norberto Ávila e Onésimo Teotónio de Almeida – não foi (nem o poderia ser) aleatória.

A junção espácio-temporal que lhes é imposta, transporta o leitor-espetador para as vivências das ilhas, para as nuances da sua religiosidade, para as suas ainda oleadas estratificações, ao mesmo tempo que oferece referências universais à Antiguidade Clássica ou ao tempo dos Descobrimentos. É, assim, em cerca de cem páginas, uma plataforma local de projeção universal. Neste livro, nada está tão longe que não possa, novamente, ser visitado; nem ninguém é tão ausente que não possa, novamente, ser convocado.

Prestemos, então, atenção, por exemplo, à amena cavaqueira a que nos transporta Álamo de Oliveira n’ A Solidão da Casa do Regalo, ao momento em que a personagem Voz intima Garrett a não se sentar, dado o seu precário estado de … morto.

«Garrett – (…) não vejo ninguém. Pelos vistos a pontualidade não é muita, Mandaram-me estar aqui com duzentos anos de vida e século e meio de morto (…). Posso sentar-me?

Voz – Não sei se, a um morto, isso é aconselhável. A desintegração… a pulverização…

Garrett – Ainda estou em bom estado (…)» (pp. 27-28)

Este delicioso diálogo logo conquista o leitor-espetador, permitindo-lhe revisitar Almeida Garrett e provando o «bom estado» em que o mesmo ainda se mantém no meio escolástico, se bem que num tempo, como nos relembra a Voz, em que « (…) continuamos a “Falar Verdade a Mentir” (…)» (p. 31).

Nova reunião é oferecida ao leitor-espetador, desta feita pela mão de Onésimo, que, No Seio Desse Amargo Mar, traz à boca de cena Vitorino Nemésio, Domingos Rebelo, Côrtes-Rodrigues, Antero de Quental e Roberto Mesquita, entre outros. Mortas em vida, estas personagens vivem na morte fabulosos «Serões de Periscópio» que, uma vez por mês, lhes permitem espreitar e contactar com a realidade dos vivos. Aliás, «quem disse que os mortos não se importam com o mundo que deixaram?», é-nos perguntado.

A intimidade presente nos excertos escolhidos pelas autoras é um traço que percorre toda esta Coletânea, convidando, pelo contacto com estes sonantes nomes açorianos e com a sua obra (aqui só ao de leve tocada, numa diáfana espreitadela), a uma descoberta mais profunda e assaz frequente que, uma vez mais, ainda tanta falta faz às nossas escolas e programas.

E é este caráter simultaneamente próximo e distante (como um “toca-e-foge” que apetece continuar a jogar) que permite um périplo por novo excerto, desta feita de José Martins Garcia. Viajemos, pela mão selecionadora da Helena e da Lucília, até à Antiguidade e ao tempo de Domiciano, um tempo de « (…) imperadores, pretores, censores, virtuosos, deuses, semideuses, heróis, filósofos, historiadores, pensadores, sábios, mistificadores. (…)» (p. 51) e onde a Radiotelevisão romana transmite, em direto, a cerimónia de divinização de Vespasiano.

Este perfeito buraco negro temporal que aqui é criado serve, uma vez mais, o propósito primeiro desta obra, aguçando curiosidades, sacudindo ideias feitas, quebrando regras e dogmas, e trazendo o texto dramático para bem perto de quem o quer ler e para os limites da imaginação de autores e dos leitores-espetadores que o querem tratar por “tu”. E tudo isto sem muitas delongas porque, como nos diz Vespasiano, tudo deve ser feito num « (…) discurso breve, porque toda a gente sabe como os discursos chateiam os telespetadores (…)» (p. 52). Telespetadores, de resto, apenas gratos por tão digno imperador ter assumido a sua condução. Ouçamo-lo:

«Vespasiano – Silêncio! (…) Neste momento solene em que assumo a chefia do império, acho ser meu dever dirigir a todos um discurso de … de boas-vindas… de boas-festas… ou lá como se diz… Melhor: um discurso de parabéns! Quer dizer: parabéns ao povo por ter um imperador tão digno!» (p. 52).

O caráter cómico de tal situação (como se vicentina fosse) é ainda exagerado pela presença em cena do próprio Dramaturgo que, impotente e desolado, grita por socorro ao ver a sua personagem (Vespasiano) tomar a seu cargo falas, didascálias, relevo, caraterização e composição; enfim, a tornar-se imperador também do texto que não era seu.

Deste quase ensaio metaliterário é também exemplo «O Marido Ausente», texto da obra Algum Teatro, de Norberto Ávila, em que uma das personagens, Penélope, tem entre mãos precisamente a construção de um texto dramático. Na incerteza do paradeiro do seu marido, Ulisses, e nos intervalos do seu entretenimento de recusa de inúmeros pretendentes, Penélope amadurece a criação de uma comédia dramática.

No seu diálogo com Solimão, Penélope nem deixa créditos por mãos alheias, precisando termos e usando, inclusivamente, apenas o melhor equipamento de escrita. Ouçamos:

«Solimão – (…) quando terminares um certo trabalho literário (…) uma peça de teatro (…) faremos representá-la nos nossos palácios da Grécia e da Turquia. (…) Faremos representar este drama …

Penélope - … comédia dramática.» (pp. 86-87)

E não será de admirar sabermos que o assunto de tal «comédia dramática» será a «fidelidade conjugal», nem admirados poderemos ficar face à nova intervenção de Penélope:

«Penélope – (…) recolhe, Solimão, aos teus aposentos (…). É que sinto precisamente uma inspiração divina. Quero sentar-me à minha Remington (…) Remington ou Underwood? (…) Remington “Made in USA” (…)» (p. 88)

A internacionalização e a globalização são, portanto, ponto assente nesta Grécia de outrora.

Novamente, no espaço livro e no local teatro nada é de mais ou de menos: tudo se completa e se complementa em função da intenção autoral e da vontade (bebida nos ensinamentos de Brecht) de provocar no leitor-espetador uma reação ou uma tomada de posição.

E, novamente, se mais provas necessárias fossem, se atesta a importância desta Coletânea de Textos Dramáticos de Autores Açorianos, que só peca por ser tardia, ao verificarmos a meticulosa escolha de excertos que a todos nos fazem pensar.

Não nos fará pensar o texto de Álamo de Oliveira Manuel seis vezes pensei em ti? Vejamos estes excertos:

« (…) Este lixo também mostra

que a qualidade é a mesma

mas com diferenças substanciais.

Nos bairros pouco lixo há,

mas, nas avenidas, há muito mais.

Na verdade, até no lixo

há grandes diferenças sociais…(…)» (p. 23)

Ou

«(…) Além disso, tanto trabalho

p’ra quase nada ganhar!

E a vida sempre mais cara

numa subida que não para.

(…)

Dizes bem, compadre amigo:

-Isto está feio de caixão.

Mas há quem aponte o turismo

para a nossa salvação! (…)» (p. 18)

Sem dúvida que nos fazem pensar e revelam que, concorrendo para a posteridade, esta Coletânea traz a lume a intemporalidade dos temas humanos abordados literariamente; isto é, acaba por ser um pequeno sacrário daquilo que sempre nos preocupou (a nós, leitores-espetadores) e que sempre nos preocupará.

Novamente pela escrita de Álamo de Oliveira somos conduzidos, no meio do lixo recolhido pelas suas personagens, a metáforas de riqueza extrema e de acutilante atualidade. Dizem as personagens:

«AM – E é lá que se travam as lutas

p’las grandes ideologias.

Foi de lá que saiu

a nossa autonomia.

BM – Muito lixo de lá tirámos

com a nossa pá adunca.

Arranjaram uma autonomia,

mas não nos autonomizaram nunca! (…)» (p. 19)

Ou ainda há espaço para se relembrarem tempos como aqueles que temos o grato prazer e a fervorosa esperança de os celebrar como findos, faz amanhã 40 anos, tal como são retratados n’ O Rosto Levantado, de Norberto Ávila:

«janeiro – (…) vieram prendê-lo, faz hoje oito dias.

Geraldo – Sim?

Marrafa – Metem-se em políticas, e depois é o que lhes acontece (…).»

Esta Coletânea é caminho, também, para a vivência mística e religiosa das nossas ilhas e das suas particularidades, catapultando, desta feita, o leitor-espetador para memórias e formas de estar tão próprias de cada Açoriano. É do açoriano mais estrangeiro (Onésimo) que nos chegam estes estados de espírito, pelas bocas pensativas de Roberto Mesquita e Côrtes-Rodrigues:

«R. Mesquita – (…) o Deus micaelense é triste, mas não foi a terra que o fez. Foram os micaelenses. Basta ver a imagem do Santo Cristo (…).» (p. 102)

Ou:

«R. Mesquita – (…) e se a mesma gente que se reduz à condição zero, de xaile e bordão a cantar aquela desoladíssima Ave-Maria dos Romeiros (…).

Côrtes-Rodrigues – Oh, Roberto! Tão funda, tão linda que é a Ave-Maria dos Romeiros! (…)». (p. 102)

Mas há, ainda, espaço, dentro da abordagem religiosa de alguns excertos selecionados, para novo cómico situacional, com um Herodes de sotaque mariense (como é construído por Norberto Ávila em «A Paixão segundo João Mateus», da obra Algum Teatro), que repete «Ubei!» a instantes e que, não sabendo qual o seu papel ao certo, recorre a João Mateus, este novo “evangelista barra ponto”, para o recuperar. O sarcasmo, a ironia e a, até, ignomínia povoam o texto e fazem-nos logo pensar nos de Gil Vicente, o pai, que, ainda que não julgando Cristo, também nos transporta para as terras de Caronte.

E há neste livrinho de capa trágico-cómica estilizada, da autoria de Óscar Ferreira, principalmente lugar para o sonho e para a sabedoria do não deixar de sonhar por se pensar que já se sonhou tudo. E esta é a lição que Daniel de Sá nos transmite através do seu Bartolomeu: deverá haver sempre a possibilidade de fazermos algo sem o temor ou a imodéstia de não deixarmos outros continuar o nosso pouco já feito.

Diz Bartolomeu Dias:

«B. Dias – (…) Vasco da Gama há de lá chegar.

Pêro de Alenquer – E se não for capaz de tal empresa?

B. Dias – Então, terá falhado a minha. Um mar só se abre quando por ele se faz caminho sem segredos. Se outro, depois de mim, não for capaz de ir aonde, tão claramente, eu julgo que se pode ir, é porque não fiz do mar um caminho fácil (…)». (p. 38)

Aprendida que foi, desde o início, a lição que os discursos maçam sobremaneira o público (grata estou, de facto, a Vespasiano!), é tempo de concluir esta intervenção que procurou, sem grande esforço (porque desnecessário), revelar as intenções e os caminhos que subentendemos alicerçar esta obra e revelar a sua amplitude de abordagens e de significados e a importância que carrega pelo leitor-espetador.

Feita a abordagem possível àquele que escolhemos como principal objetivo desta Coletânea de Textos Dramáticos de Autores Açorianos (a sua didatização), cremos que, pela pertinência dos temas que engloba nos seus excertos, pelas suas atualidade e intemporalidade, pela alargada referenciação e pela simultânea proximidade que se adivinha com os nossos alunos, este objetivo é plenamente atingido.

Havendo agora esta obra, não há porque não trabalhá-la como suporte a Gil Vicente, como acompanhante das viagens dos Lusíadas, como eco de Felizmente Há Luar! ou, simplesmente, como importante e devida referência cultural.

Havendo agora esta obra, há espaço para crescermos dentro da nossa literatura e, recuperando os mestres das letras açorianas, darmos vazão à didatização pelas nossas mãos, mestres da educação.

Não será um livro de mesa-de-cabeceira porque não foi para isto que nasceu; mas será, de certeza, um livro de folhas com os cantos dobrados, a cheirar a borracha, sublinhado a lápis e cheio de fluorescências porque foi para isto, para o trabalho em aula e para a recuperação de obras (algumas quase perdidas ou em risco de oblívio) que a Helena e a Lucília o conceberam.

A ambas, obrigada em nome dos leitores-espetadores.

Lurdes Alfinete

24 de abril 2014

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