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NO ‘RASTO’ DE JC: AS ‘ROTAS’ DA MEMÓRIA...

 

 

                                                                              MARIA DO ROSÁRIO GIRÃO RIBEIRO DOS SANTOS

                                                                                                              MANUEL JOSÉ SILVA

                                                                                                              (Universidade do Minho)

 

                Quem nunca desconfiou da autobiografia, tão falaciosamente linear, que estabelece um pacto referencial, se assume como pura subjetividade e detém uma função (questionável…) de verdade? Quem nunca questionou o jornal íntimo, diariamente escrito (em princípio…) e obrigatoriamente datado, bem como o ensaio, ambos provenientes de uma estética do “non finito”? Quem nunca se deteve no autorretrato e na autoficção, suscetível de ser definida como o desejo de criar uma nova individualidade, pela via da osmose entre ficção e referencialidade?

                A obra de C.C., obra total, assume-se como resposta exemplar a uma ineficaz indecisão teórica: escrita na terceira pessoa (uma ‘não pessoa’, pois nem designa o leitor nem o alocutário…), e tendo como protagonista o “castelão” (alterónimo do Autor) J.C., à “janela do seu ‘castelo’ onde tem o seu escritório”, ela oferece, mediante a restrição do ponto de vista instaurado(a), um amplo ‘fresco’ social e uma aprofundada reflexão, quer sobre o ‘fenómeno’ genelógico (poemas, crónicas, lendas, fragmentos de jornais íntimos, documentários), quer sobre os eventos mais marcantes de uma ‘consciência’ em devir (o compromisso com a justiça, a luta contra a corrupção e a revolta perante o facilitismo consuetudinário), quer sobre os espaços e os tempos não ao acaso respigados (“De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores”) - numa perspetiva geográfica, histórica e política -, que formaram o Homem/Escritor e com ele entreteceram relações eufóricas e disfóricas.

                Um novo conceito subjacente à escrita pessoal perfila-se, assim, no horizonte: a “circum-navegação” entendida como relato subjetivo de uma existência que os espaços configuram e como retrato de uma época conturbada (cinquenta anos de História?), objetivamente pincelado pela distância que o alterónimo faculta e que a memória incentiva.

 

                Nem sempre a teoria e a crítica literárias se revelam eficazes no tocante à delimitação de fronteiras entre as diversas categorias de escritos pessoais e à representação multifacetada do eu íntimo (invenção cartesiana... de Pascal), ou, por outras palavras, da substantivação do pronome, indicador contextual e indexual da primeira pessoa. É o caso da autobiografia, que obedece, em geral, a uma sucessão linear de etapas cronológicas, que estabelece um pacto autorreferencial pela via do compromisso de autenticidade firmado pelo Autor[i] e que tanto detém uma função de conquista de verdade (visando desmascarar réstias de ficção) como uma função de domesticação do tempo (a conferir um valor de monumento à obra catarticamente redigida) e, por fim, uma função de comunicação anelada (pela dimensão ilocutória subjacente à escrita catártica). A ‘grafia do eu’ oscila, assim, entre o modus significandi das palavras da subjetividade e o modus agendi que remete para o uso de tal (tais) palavra(s) subjetiva(s).

                Na sequência desta definição incipiente e/ou de uma constrangedora incompletude, parece não ser despiciendo abordar alguns ‘marcos’ de análise que reputamos cruciais (Clerc, 2001: 77), tais como o título e o subtítulo, a seleção dos episódios evocados e a alternância dos jogos verbais. Género misto, ancorado na narrativa e no discurso, a autobiografia não raro é interrompida por uma súmula elucidativa de observações tecidas no presente de enunciação e suscetíveis de sublinharem a dependência dos factos da história à voz narrativa que os organiza. Vê-se, assim, ritmada pelo comentário interpretativo, por parte do escritor, dos atos passados da personagem que ele foi e já não é: “A vida passada só fazia sentido para o ego que fora mas já não era.” (Chrystello, 2009: 20); longe, porém, de ser um discurso solipsista, o monólogo consigo mesmo (inscrevendo-se neste dialogismo uma dualidade traduzida pela escrita do vivido e pela sua subsequente exegese) estimula o diálogo, de onde o leitor (nomeado ou subentendido) não está obviamente excluído: “Isto pode ajudar o leitor a compreender o que se vai seguir.” (2009: 322) / “Ainda bem que foram os portugueses quem ‘descobriu’ o Brasil. Imaginem que se fossem os espanhóis ou os ingleses não havia índios como eles fizeram na América do Sul e na Austrália aos aborígenes.” (2009: 129).  

                Nesta conjuntura teorética, ChrónicAçores, de Chrys Chrystello, poderia ser ‘rotulada’ de autobiografia, na medida em que dá a sensação de percorrer, conquanto de modo descontínuo, as etapas vivenciais mais marcantes da trajetória de JC: “Do anti-herói. Do nascimento”, “Casa nova. A família em crescimento é como as desgraças nunca vêm sós”, “Liceu e entretenimentos doutras eras”, “A entrada na Universidade é sempre traumática”, “Finalmente a malfadada tropa e o casamento, dois males nunca andam sós”, “maio 1974, a expectativa, a fraude e o desengano”, “Annus Horribilis. Outubro 1976: Diáspora macaense”, “O regresso a Díli”, “Austrália. A Ilha e o nascimento duma filha” e “Letras Açorianas”. Esta reconstituição de vivências, não ao acaso respigada na “Circum-navegação” de Chrys Chrystello, obedece menos à ordem cronológica (sendo constantes as anacronias sob forma de analepses esclarecedoras e de aliciantes prolepses) do que à matriz temática: não será, aliás, a cronologia (tempo da realidade e não tempo anacrónico da escrita) uma pura ilusão, posto que, sinónima de reconstrução, determina relações de causalidade nem sempre existentes na vida? Por seu turno, o autobiógrafo sofre[ii], pensa-se e diz-se como um ser de exceção ou como a origem irrefutável de todos os valores, enquanto o memorialista, mediante o balanço da sua existência em função da exegese do fresco sociocultural, tem como escopo a recapitulação dos conflitos mais pertinentes da sua geração (Hubier, 2003: 54). A não exemplaridade de JC, por ele confessada e assumida, sobressai ao longo dos seus périplos e respetivas experiências que se não furta a partilhar: não só é um anti-herói convicto como um observador passivo (2009: 103) que, de decénio em decénio, vai desiludindo os Pais (2009: 264), comprazendo-se em obter a mais baixa classificação como Oficial do Exército (2009: 272) e sendo renitente a “exames de qualquer tipo” (2009: 43). Reconhecendo que anda “ao contrário de todo o mundo” (2009: 126), não só prepara a via à irrupção da sátira (num universo às avessas) como empresta à sua obra, total e plural, uma coloração picaresca: contudo, não será o mundo o genuíno ‘herói’ pícaro em vez do pseudopicaresco JC? Ainda nesta ordem de ideias, o discurso memorialista tende a proteger-se da introspeção e a privilegiar a narração, dá primazia à História relativizando a pessoa e, ao tratar o eu como um ele, enfatiza o papel histórico do observador, instaura uma distância de bonomia algo irónica entre o narrador e o protagonista, faculta uma visão sociopolítica menos complacente e imparcial, porquanto alicerçada num campo de restrição automático, quase de autocensura. A este respeito, atentemos no incipit de ChrónicAçores:

                “Felizmente sempre tivera a mania de escrever e guardar o que escrevia. Assim chegou este autor a ler tudo o que JC escrevera ao longo de mais de meio século. Eram notas, pequenos apontamentos, escritos e manuscritos de caligrafia variável como os estados de alma, de vários tamanhos, formatos e estilos, que se haviam acumulado em pastas não catalogadas nem sequer ordenadas de qualquer forma específica. [...] Fora um trabalho longo. Ler e rever tudo o que lhe aparecia escrito e descortinar o que era real, inventado ou meramente sonhado. [...] Uma vez na posse daqueles arquivos preciosos [...] a sua tarefa fora interpretar e colocar geograficamente os eventos nos locais por onde JC passara, que nem um autêntico caixeiro-viajante do mundo, sempre impaciente e insatisfeito em busca de uma pátria, uma mátria, um lar. E é sobre a fluente e vasta escrita de JC que este livro versa. [...] era ainda tímido e acanhado quando nos franqueou a porta para a sua vida e para aqui narrarmos um pouco do seu percurso.” (2009: 19 e 41).

                O supracitado fragmento inaugural não deixa de espoletar algumas questões relevantes. Em primeiro lugar, a assunção do género como “memórias”[iii], geradoras de uma autobiografia detentora de precária autonomia. Em segundo lugar, a rutura com o eu da convenção e a adoção da terceira pessoa que, não designando o locutor nem o alocutário, constitui o suporte de um discurso emitido por um sujeito escrevente que tem, como horizonte, a intentio lectoris: “Rompendo com a tradição iria ajustar a sua identidade à persona que aceitara como seu alter-ego e com a qual teria de habitar para o resto dos dias. [...] Fora importante esta dicotomia para definir a sua personalidade, [...]” (2009: 28). Em terceiro lugar, o recurso a um alterónimo, pela via do qual o Autor, a fim de se conhecer melhor, se retrata como se fosse um estranho em relação a si mesmo: “Há decerto um problema de identidade conflituosa que se esgrime e cuja solução foi encontrada nesta identificação tardia com a sua meninice.” (2009: 179). Em quarto lugar, o ineditismo deste autorretrato[iv] e heterorretrato, evidenciando quer a transformação psicológica da personagem, no espaço multímodo atravessado, quer a consciência heraclitiana do fluir do tempo, passíveis de justificação tanto da nostalgia difusa como da significação ideológica e política configurando o egotismo literário. Assim é que a prosopografia (pouco ou nada sabemos do aspeto físico de um JC que aderiu à moda “hippie”...) é preterida pela etopeia (sinónima de caraterização psicológica e moral): JC, que viveu três vidas numa só (2009: 20), é um otimista nato (2009: 85), um “sonhador, idealista, poeta e jovem” (2009: 76), um eremita por vocação (e, em simultâneo, um crítico sagaz), um adepto da igualdade (2009: 42) e, por fim, um amante de carros... para não falar da sua bem conhecida vertente multiculturalista. Em quinto lugar, o quadro histórico, a narrativa de viagens e a notícia de jornal (manchete ou não...) não deixam de ser agrupadas sob o nome de crónicas e de ensaios, confrontando, em paralelo, experiências subjacentes à esfera do privado e do público, tecendo analogias e tirando conclusões, qual arte do esboço advinda de uma estética do “non finito” e desembocando num inevitável caráter fragmentário. Este culto do fragmento está, igualmente, patente em excertos de um eventual jornal íntimo, indiciado pela data inserida entre parêntesis curvos: “ (14 de dezembro de 2005) ” / “ (fevereiro de 2007”) (2009: 129 e 265).

                Esta escrita do eu, que é também, algo paradoxalmente, escrita sobre o outro, desagua com frequência na autoficção, “un de ces territoires nouveaux et privilégiés du romanesque contemporain” (Doubrovsky, 1988: 7), género híbrido que estabelece um pacto de verdade intencional, mas não real. Arte da perturbação, alicerçada na ambiguidade e na contradição, a autoficção[v], caraterizada pelo estabelecimento de correlações entre ficção e referencialidade e pela dificuldade em distinguir o sujeito do enunciado do sujeito da enunciação, surge do desejo de criar pela arte uma nova individualidade, um outro eu não permanente que re-envia a uma frágil multiplicidade carecendo de profundidade psicológica. Ora, não se identificará, em certa medida, toda e qualquer autobiografia com uma autoficção? A este propósito, quedemo-nos na elucidativa frase de JC: “Foi tudo inventado numa deprimente tarde chuvosa de inverno aqui na ilha de S. Miguel.” (2009: 255). E não deformará a recordação (mediante a idealização gerada pela distância ou a repulsa que essa mesma distância não olvidada desperta) a experiência vivida per se deformada? Será que a felicidade invoca a felicidade e o desespero evoca o desespero? Ou tratar-se-á do caso inverso, como sublinhou Dante – “Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria” – nos antípodas dos “Souvenirs” de Musset?

                Em ChrónicAçores, Chrys Chrystello convoca as memórias do seu alterónimo JC, que de contínuo recorre à memória voluntária e fotográfica[vi], evidenciada pelo número significativo de ocorrências das formas verbais “lembrar” e “recordar”, em quase todos os modos conjugadas: “Recordava JC que, à noite, a vela [...] recortava ilusórias sombras [...]” (2009: 168); “Lembrava-se, em particular, duma Páscoa [...]” (2009: 179); “Será importante recordar aqui [...]” (2009: 249); “Lembra-se de ter escrito um artigo [...]” (2009: 297). Todavia, a memória afetiva (podendo ser definida como um sentimento presente defluindo do choque afetivo da recordação) não está ausente desta obra paradoxalmente confessional e impessoal: é através da memória romântica (Tadié, 1999: 177) que JC se sente impelido a regressar aos espaços de outrora no intuito de reviver, com a intensidade possível, o álbum das fotos antigas[vii]. O resultado deste regresso afigura-se constrangedor: um re-encontro decetivo com os silêncios do tempo, com a vacuidade dos locais escavada na antiga plenitude e com a iminência da morte pairando de manso sobre a ressurgência emotiva[viii]. A par da memória romântica irrompem de mansinho, por vezes sem convite mas bizarramente convidadas, a memória sensitiva, sobremaneira olfativa[ix] e auditiva[x], e a memória imaginativa. Incapacitado de tornar a sentir a sensação de antanho, apressa-se JC a reconstruir a imagem-recordação, bem como o sentimento que julga tê-lo invadido em épocas transatas: “O que mais persiste na sua já distante reminiscência dos factos, a que o tempo, as ficções e os aspetos místicos da imaginação acrescentaram decerto algo, é o enorme fogão a lenha que havia na cozinha.” (2009: 29) / “Quando JC falava da sua estadia em Bali, reconstruía sempre mentalmente esse período [...]” (2009: 371). Nem sempre, porém, JC se consegue recordar, talvez pelo facto de a memória não ser hoje o que dantes era (1999: 368): “Mesmo hodiernamente [...] tentava sem conseguir, recordar-se de cheiros, aromas e sabores dessa época.” (2009: 257). A fecundidade desta rememoração e deste esquecimento é marcada por oportunas digressões incidindo ora sobre as guerras tribais timorenses, ora sobre a descrição ‘pitoresca’ dos templos balineses, ora sobre a controversa descoberta das Ilhas açorianas, ora sobre os contarelos e lendas do património brigantino, exarado, de modo exaustivo, no Cancioneiro Transmontano. E não constituirão a digressão histórica ou geográfica e o excurso político ou cultural meios óbvios de desdramatizar o ato autobiográfico (Didier, 1983: 17), autorizando o seu diferimento e garantindo a sinceridade do circum-navegador? Assim sendo, a datação externa dos eventos sociais, rigorosamente estabelecida, a par da cronologia pessoal, interna e relativa, permitem aos biógrafos ‘descartados’, pois não encartados, traçar genericamente a biografia de JC... 

 

BIOGRAFIA DE JC

 

1949 – Nasce JC (no pós-guerra) (2009: 24). A sua geração, nascida no pós-guerra (“entenda-se 2ª Grande Guerra”), é uma geração rebelde (2009: 254).

1951 – Por volta dos dois anos, vai de visita às berças (Trás-os-Montes), à aldeia de Azinhoso, no Mogadouro, e à de Eucísia, em Alfandega da Fé (2009: 30). Desde esta idade, massacra com beliscões o Sr. Padre Manuel, “há décadas a pregar no Azinhoso” (2009: 190).

1955 – Cinco anos e meio depois do seu nascimento, nasce sua irmã (2009: 37).

1959 – A sua irmã tem quatro anos (2009: 37).

1959-1960 – Por esta altura, faz exame de admissão aos liceus, na escola que hoje se chama EB1 nº 18 na Rua dos Miosótis. Quanto à escola primária, onde estudou até à quarta classe, ela será demolida no decénio de 80 (2009: 43). JC tem pouco mais de nove anos quando a família muda para a Rua do Campo Lindo (2009: 225). Passa a frequentar o Liceu (2009: 229).

1960 – É um aluno acima da média nos dois primeiros anos do Liceu Alexandre Herculano, sito na Avenida Camilo, Porto (2009: 228). O percurso de ida e de regresso do Liceu era demorado: JC apanhava um elétrico nº 8 na Rua do Campo Lindo ou um nº 7 ou 7/ (“lia-se sete com traço”) na Rua de Vale Formoso (2009: 229). Outras vezes, a professora de Francês, que “levava as filhas ao Rainha Santa” (2009: 229), dá-lhe boleia.

1961 – Até esta data, e nas férias do verão, iam para a Póvoa do Varzim, “onde alugavam uma casa em frente à velhinha estação dos caminhos-de-ferro” (2009: 44). Por ter uma ótima voz, até aos doze anos, grava um disco “single”, em casa de seu tio, cujo tema principal é “Et maintenant” de Gilbert Bécaud (2009: 228). Por esta altura, abre o primeiro café da zona chamado “Cenáculo” (2009: 233).

1961-1962 – JC passa férias em Trás-os-Montes. Teria uns doze ou treze anos quando ‘embarca’, para essa viagem histórica, num Opel Olympia preto, cuja matrícula é IB-17-55 (2009: 159).

1962-1964 – Vai com os seus dois primos e seu Pai a Penas Róias: o jipe voltou-se e “tiveram todos de saltar para não ficarem debaixo do rodado.” (2009: 193). Nessas longínquas férias, visita pela primeira vez a Espanha com os seus Pais (2009: 193).

1963-1964 – Morre a sua bisavó Moraes (“de aparência azeda e de poucas palavras”) aos 91 anos, teria JC catorze ou quinze anos (2009: 163). No quinto ano do Liceu, JC passa a Letras e reprova a Ciências, pois, nesta época da sua vida (dos treze aos quinze anos) só pensa no sexo oposto (2009: 235). Bebe, aos catorze ou quinze anos, na aldeia da Eucísia, a sua primeira e única cerveja, que o leva “à cama com uma hepatite ‘A’” (2009: 249). Publica, neste período, alguns artigos no jornal Centauro (que se opunha ao conservadorismo do jornal O Prelúdio), propriedade dos alunos do Liceu Alexandre Herculano (2009: 250).

1965 – Começa a namorar, aos dezasseis anos, com uma jovem que a família não aprova por não a considerar “compatível com os seus pergaminhos”. Os dois últimos anos do Curso Liceal decorrem normalmente (2009: 239).

1966 – Conhece Lisboa, já com dezassete anos (2009: 194). Morre a sua avó paterna, à qual era muito afeiçoado (2009: 235 e 288).

1966-1967 – Colabora com a Rádio Alto Douro (RAD), propriedade do avô de um primo seu (2009: 249). Em abril deste ano, é o primeiro estudante português convidado para um Programa de Intercâmbio com a Finlândia (2009: 274).

1967 – JC começa a sua longa carreira de jornalista ao fazer a reportagem do “Circuito Internacional de Vila Real” e da “Fórmula 3”, vendendo “um exclusivo à Rádio Renascença para quem haveria de trabalhar até sair de Portugal em 1973” (2009: 241). Transmite a notícia da morte de Otis Redding (num desastre de aviação ocorrido a 10 de dezembro). Após 1967, e por frequentar o TUP, torna-se politicamente ativo (2009: 258).

1969 – Estreia-se no TUP (Teatro Universitário do Porto) a 22 de abril. Em maio está na Covilhã com o Teatro Universitário na estreia da peça de Lope de Vega intitulada “Fuenteovejuna” (2009: 246).

1970 – Quando faz vinte e um anos, o Pai oferece-lhe um cigarro SG – Ventil, “dizendo que já podia fumar”. No entanto, JC prefere o seu maço de Estoril e replica: “obrigado, pai, mas prefiro dos meus” (2009: 239).

1970-1971 – Entre novembro de 1970 e março de 1971 vende Enciclopédias Verbo e outros livros “com algum sucesso financeiro.” (2009: 246).

1972-1973 – Publica, em maio, Crónicas do Quotidiano Inútil (Edição de Autor). Um dos textos poéticos desta coletânea foi dito por Mário Viegas, que viria a falecer em 1996 (2009: 246). A 9 de outubro entra pela primeira vez no Convento de Mafra para seis meses de recruta [Serviço Militar Obrigatório (2009: 271)]: “Ao fim dos seis meses tivera a distinta honra de ser o oficial com a mais baixa classificação que alguma vez se tinha graduado: 10,3 valores.” (2009: 272). Passa um mês em Tomar como Aspirante de Infantaria, reclassificado em Aspirante de Intendência (2009: 272-273), é transferido para Leiria (RAL – 4) como Aspirante SAM (Secretariado e Administração Militar), estagia mais um mês em Santa Margarida e regressa a Leiria, onde permanece de abril a setembro de 1973 (2009: 273).

1973-1974 – Casamento de JC, em abril de 1973 (2009: 273). É mobilizado para Timor, com partida marcada para 17 de setembro. Hesita em partir e idealiza uma fuga, pois “Adorava Paris” (onde fizera escala antes de rumar ao Oriente exótico) e receava o desconhecido (2009: 274-275). Em setembro de 1973, descreve Díli (para onde fora destacado como oficial miliciano da Intendência) como uma “cidade sem vida, morrendo devagar nas próprias cinzas.” (2009: 287). De setembro a dezembro deste ano, exerce funções de capitão (na Chefia dos Serviços de Intendência) na vila de Bobonaro, perto da fronteira indonésia, onde escreve quase diariamente à sua esposa sem obter qualquer resposta. Em contrapartida, recebe semanalmente epístolas de seu Pai (2009: 290). A 24 de dezembro de 1973, contacta com a sua Esposa, que não está interessada em vir para Timor (2009: 290).

Vive em Díli de dezembro de 1973 a abril de 1974. É suspenso como Editor-Chefe do jornal A Voz de Timor e como autor de “Educação – Um Suplemento Especial”, sendo impedido, até abril de 1974, de se expressar publicamente (2009: 299). 1974 – Vive na Indonésia (2009: 133). JC vê, pela primeira vez, um letreiro na porta dos templos balineses (relativo ao ingresso) que o deixa chocado (2009: 138). Em julho, morre o seu avô materno (2009: 288 e 302). Em meados de setembro, JC, “desiludido com o crescente partidarismo político”, decide demitir-se do seu cargo de Editor-Chefe de A Voz de Timor (2009: 323). A 18 de novembro, “chega o novo e último comandante militar que o convida para liderar a pasta da Comunicação Social”, convite este que declina (2009: 339). Toma, então, a resolução de partir para Bali, “terra paradisíaca dos hippies” (2009: 339). Depois da amnistia decretada pelo General Spínola, JC parte em gozo de licença militar prolongada, viajando para Bali e Java e, depois, para a Austrália, mais concretamente para Melbourne e Sidney (2009: 345). O seu estatuto de “ausente sem licença” é revogado e recebe um louvor pelos serviços prestados. É promovido a Chefe Interino dos Serviços de Intendência (2009: 345).

1974-1975 – Ruma à Austrália, por se ter apaixonado, “com a habitual fogosidade e impetuosidade”, por uma jovem (2009: 346). Compra, em Sidney, a meias com um vigarista, um pequeno café restaurante chamado “Perama’s” e especializado em bolos – JC aprecia sobremaneira o “Banana Cake” (2009: 348).

1975 – A 29 de fevereiro regressa a Timor e vai alertando, em vão, para a presença de barcos da Marinha Indonésia em águas timorenses (2009: 352). Em maio, acaba por vender o “Perama’s”. A 6 de junho, é promovido a tenente, ficando na situação de disponibilidade. Separa-se da sua primeira esposa (neste período crítico, é apoiado por sua irmã) e vai viver com os seus Pais.

1976 – Morre o melhor amigo de JC (2009: 288). Em maio, um ano depois de regressar a Portugal, nascem dois gémeos do sexo masculino (2009: 373). No Natal, parte para Macau, fazendo antes da partida um mês de estágio na Central Térmica do Carregado (2009: 374). Em Macau, trabalha na CEM (Companhia de Eletricidade de Macau) e na Rádio Macau. Apaixona-se por uma jovem macaense.

1978 – Vive com a jovem macaense num subúrbio de praia na Austrália Ocidental. Toma a decisão de escolher a Austrália – “descoberta após 1950” (consoante informação colhida num artigo de CC intitulado “A pátria não é a língua portuguesa (para os luso australianos) ” – como a sua pátria adotiva, tal como já decidira fazê-lo quando lá estivera em 1974 (2009: 379).

1979 – Em finais do ano, é decretado o divórcio litigioso de JC.

1980 – Casa com a macaense, pelo registo civil, em Hong-Kong (2009: 381). O Pai de JC confessa-lhe, por esta altura, que se apercebera de que JC, há longos anos, lhe havia cobrado propinas em duplicado (2009: 252).

1986 – Nasce a sua filha Ingrid em agosto (2009: 384). JC trabalha para a “Agência de Notícias Lusa” e é professor de tradutologia.

1988 – Vinte e cinco anos depois de ter reprovado no Liceu, tem a coragem de dizer a seu Pai que ele o deveria ter “metido a marçano”, conforme o prometido (2009: 235).

1992 – Morre o seu Pai (2009: 288). Em julho, é convidado para um Congresso de verão na Universidade do Minho. Em finais do ano, é suspenso pela “Agência Lusa” (2009: 385).

1994 – Morre a sua última tia-avó (2009: 168).

1995 – Regressa a Portugal (2009: 385).

1996 – Nigel, o seu filho mais novo de JC, nasce no Hospital de Santo António no Porto.

2000 – Morrem os seus tios maternos (2009: 288).

2002 – Entre 2002 e 2005, JC, “o único a viver no distrito”, acalenta o sonho de restaurar a casa da Eucísia (2009: 169).

2002 – Chega a Bragança (informação colhida no Cancioneiro Transmontano).

2005 – Na feira do livro de Bragança, é lançado o seu Cancioneiro Transmontano (2009: 155-156). Sente-se, então, “transmontano dos quatro costados, apesar do pouco tempo contabilizado a viver na região.” (2009: 155-156). Aliás, ao longo dos “anos que vivera em Bragança, todos se habituaram a JC, como um australiano que falava português” (2009: 155).

A partir de 21 de setembro, pelas 22.30 nos Açores, fazem-se sentir pequenos sismos, relatados em jornal íntimo e sísmico (2009:75). JC descobre que seu filho Nigel, de nove anos, “andava a fazer uma busca de sexo livre na internet” (2009: 121). JC visita sua Mãe, decidindo que, doravante, passarão a ser os outros a visitá-lo (2009: 263).

2006 – Visita da filha que reside na Austrália (2009: 263). Nigel, filho de JC, anda preocupado porque os colegas, lá na Escola, “andavam a fumar cagarros” (2009: 101). Sonha com o convite de retornar, em agosto, a Timor, trinta e um anos decorridos sobre a sua estada, de 1973 a 1975 (2009: 202).

2008 – Os autores desta biografia conhecem pessoalmente JC.

 

                Algumas conclusões se impõem desde já.

Primeira conclusão – Se o género “memórias” se adequa indubitavelmente à segunda parte da obra em análise (que nos seja lícito dividir o indivisível...), correspondente à maturidade ou ao amadurecimento do Autor, a autobiografia, detendo uma função heurística, invade, sem sombra de dúvida, a primeira parte, equivalente a uma cosmogonia feliz, ao tempo revolvido da inocência e ao espírito de aventura de uma juventude perdida.

Segunda conclusão – Se a identidade entre autor, narrador e protagonista é desde o incipit questionada, mercê da alteridade que a intrusão de JC carreia, tal questionamento tende paulatinamente a delir-se, à medida que a criatura JC pede de empréstimo a sua personalidade ao criador ortónimo CC, a ponto de os dois se confundirem e fundirem, no explicit, numa primeira pessoa reveladora do artifício literário ao serviço do pseudorromanesco[xi]. Aliás, para certos críticos, a originalidade da autoficção consiste no desvendamento do nome próprio: JC parece constituir, verdade seja dita, uma parte do nome de CC...

Terceira conclusão – Se as motivações psicológicas da escrita pessoal (Miraux, 2007: 27) nem sempre ressaltam óbvias nas páginas inaugurais de ChrónicAçores, surgem transparentes no seu epílogo, podendo mesmo ser elencadas. De facto, CC, sujeito escrevente órfico em busca do seu produto textual, qual Eurídice punida pelos deuses, circum-navega com o fito de psicanalisar a origem dos seus atos, analisar o seu percurso individual em função do contexto coletivo, traçar o retrato moral e social da sua geração, partilhar com outrem as suas vivências transatas e presentes, unificar as miríades existenciais do seu conturbado percurso, compreender o universo circundante à luz de um passado mítico e de um presente em devir, fruir de uma felicidade possível, tecida de resignação ao statu quo, mas não isenta de combatividade, e refletir sobre a transitoriedade da condição humana que só a arte catártica pode redimir e eternizar.

Quarta conclusão – Se os estudos literários, até à data e no que respeita à literatura de matriz autobiográfica, tão-somente conhecem a autobiografia, tradicional e moderna, as memórias, o ensaio, as confissões, o jornal íntimo, o autorretrato e a autoficção, poderão doravante acolher no seu seio um novo subgénero, a “circum-navegação”, que passamos a definir mediante o prefixo “circum” (e quem se não lembra dos Descobrimentos) e do lexema “navegação” (e quem não é, nos dias de hoje, um ferrenho internauta?). Assim é que “circum-navegar” aponta para a circularidade da trajetória humana, que só no heteróclito encontra a unidade (para logo a perder...), que só na alteridade lobriga a identidade (ameaçada de contínuo), que só no fragmento descortina a totalidade (sonho desvanecido de precário) e que só no relativo entrevê o absoluto, dado que, como escreveu André Malraux, “L’art est un anti-destin”.

Quinta conclusão – No rasto de JC, e através da geografia literária que as rotas da memória configuram, forçoso se torna confessar que lhe perdemos o rasto alhures no decénio de 90. re encontrá-lo-emos[cc1] , todavia, aquando da publicação do segundo volume da trilogia ChrónicAçores...

 

[i] Segundo Jean Starobinski (1970), só se pode falar de autobiografia quando há identidade entre o narrador e o herói da narração, assim como primazia da narração sobre a descrição e noção de percurso ou trajetória (de uma existência). Por seu turno, Philippe Lejeune define autobiografia como uma narrativa retrospetiva em prosa “qu’une personne réelle fait de sa propre existence lorsqu’elle met l’accent sur sa vie individuelle, en particulier sur l’histoire de sa personnalité.” (1975: 14).

[ii] Segundo Georges Gusdorf, “La difficulté d’expression atteste une difficulté d’être, non par humilité, comme on le croit parfois, mais par recul devant le grand espace, devant l’affirmation de soi au péril des autres.” (1991: 23).

[iii] O conceito de memórias e de memória, metaforizada pelo “baú” e pelos “cofres”, é, aliás, recorrente na obra de Chrys Chrystello: “Depois fora visitar o baú das memórias [...]” (2009: 155); “Essa é, aliás, a única Páscoa da sua vida que conseguia evocar. [...] Além dos arraiais ou festas, por altura dos santos populares, merecia especial relevo nas suas memórias, a apanha e o descasque da amêndoa.” (2009: 180); “Mais uma experiência que se guardaria no baú das memórias.” (2009: 348); “Tantos que nem os nomes lobrigava, aferrolhados nos cofres da memória.” (2009: 124).

[iv] Do ponto de vista de Michel Beaujour, “La formule opératoire de l’autoportrait est donc: ‘Je ne vous raconterai pas ce que j’ai fait, mais je vais vous dire qui je suis.’” (1980: 9).

[v] Ver, a este propósito, a definição de Vincent Colonna: “L’écrivain est toujours le héros de son histoire, le pivot autour duquel la matière narrative s’ordonne, mais il affabule son existence à partir de données réelles, reste au plus près de la vraisemblance et crédite son texte d’une vérité au moins subjective – quand ce n’est pas davantage.” (2004: 93).

[vi] “As lembranças que JC guarda dessa época são mais decorrentes das fotos, [...] das quais reteve uma memória dos eventos por via fotográfica.” (2009: 29); “Há fotografias destas que jamais esmorecem ou amarelecem na memória de cada um.” (2009: 185).

[vii] “Quando entre 2002 e 2005 tentara percorrer alguns desses caminhos descobrira estradas novas. Alguns locais tinham perdido a sua imagem misteriosa e mística da juventude, e a memória de gentes perdidas.” (2009: 185); “[...] recriara os passos dados, quarenta anos antes, por aldeias, vilas, lugares e lugarejos perdidos na memória de tempos idos. Visitou-os a todos. Raras vezes encontrou os coevos desses percursos da sua infância.” (2009: 155).

[viii] “Também a casa está degradada. Parte do teto da cozinha velha (nas traseiras) a cair. Um certo ambiente de casa abandonada [...]” (2009: 168).

[ix] “Duma coisa estava, porém, certo: jamais esqueceria o cheiro a carvão e as fagulhas que saltavam da locomotiva nas viagens de comboio do Porto Trás-os-Montes.” (2009: 186); “Uma iguaria [cerejas e ginjas] da qual apenas a memória conserva cheiros e sabores.” (2009: 180).

[x] “[...] lembrava-se e jamais se esqueceria, das trovoadas fortes em pleno Verão durante as quais se metiam todos debaixo das camas, embrulhados em cobertores de papa, a rezar a Santa Bárbara que a trovoada passasse.” (2009: 185); “Quando JC estava de férias no Azinhoso, além do chiar dos rodados das carroças de bois que o acordava bem cedo todas as manhãs, lembrava-se de tantas coisas [...]” (2009: 189). Esta memória brigantina repassa, igualmente, as “Notas do Autor” ao Cancioneiro Transmontano: “Lembro-me do cheiro a feno na Eucísia, do chiar dos carros de bois no Azinhoso, dos cortejos pascais engalanados com as colchas penduradas nas pequenas janelas [...]” (2005: 9).

[xi] “[...] JC [...] decide demitir-se como Editor Chefe, [...] Exausto, [...] o autor entrega [...] pedras basilares, documentais e evidenciais, sobre os erros de anteriores administrações.” (2009: 323); “De princípio pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada.” (2009: 486). O negrito é da nossa responsabilidade.

Referências Bibliográficas:

Beaujour, Michel (1980) Miroirs d’encre: rhétorique de l’autoportrait, Paris: Éditions du Seuil, col. “Poétique”.

Chauvier, Stéphane (2009) “Ce que ‘Je’ dit du sujet” in Les Études Philosophiques. Moi qui suis le sujet, Paris: PUF, nº 1.

Colonna, Vincent (2004) Autofiction & autres mythomanies littéraires, Mayenne: Éditions Tristam.

Chrystello, J. Chrys (2002) “A pátria não é a língua portuguesa (para os luso australianos)” in Língua e Cultura. Atas do Congresso “A Lusofonia a Haver”, Lisboa: Sociedade da Língua Portuguesa, III série, número especial.

Chrystello, J. Chrys (2005) Cancioneiro Transmontano. Fotografia de Luís Canotilho, Bragança: Edição da Santa Casa da Misericórdia.

Chrystello, J. Chrys (2009) ChrónicAçores: uma circum-navegação. De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até aos Açores. Prefácio de Daniel de Sá, Ponta Delgada: Ver Açor, Lda.

Clerc, Thomas (2001) Les écrits personnels, Paris: Hachette Supérieur, col. “Ancrage”.

Didier, Béatrice (1983) Stendhal autobiographe, Paris: PUF, col. “Écrivains”.

Doubrovsky, Serge (1988) Autobiographiques. De Corneille à Sartre, Paris: PUF.

Gusdorf, Georges (1991), Auto-bio-graphie, Paris: Odile Jacob.

Hubier, Sébastien (2003) Littératures intimes. Les expressions du moi, de l’autobiographie à l’autofiction, Paris: Armand Colin/VUEF.

Lejeune, Philippe (1975), Le Pacte Autobiographique, Paris: Seuil.

Miraux, Jean-Philippe (2007) L’Autobiographie. Écriture de soi et sincérité, Paris: Armand Colin.

Starobinski, Jean (1970) “Le style de l’autobiographie” in Poétique, Paris: Seuil, nº 3.

Tadié, Jean-Yves & Marc (1999) Le sens de la mémoire, Paris: Gallimard.


 

 

 

 

 

 

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